domingo, 20 de agosto de 2023

Na Parábola da Pérola

“Outrossim, o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas;
E, encontrando uma pérola de grande valor, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a.” – Mateus, 13:45 e 46

Na Parábola da Pérola Preciosa, contada por Jesus, o que sempre mais me impressionou foi aquele que, possuindo-a, foi capaz de vendê-la...
Ele, por certo, não sabia o valor do que tinha em suas mãos, e trocou-a por um preço irrisório, de vez que, para o que buscava boas pérolas, toda a sua riqueza nada significava diante da pérola que pode adquirir.
Acontece conosco, muitas vezes, o que aconteceu com o vendedor da pérola, que cambiamos os bens espirituais pelos temporais.
Quase todos os grandes luminares da Espiritualidade não hesitaram em renunciar a tudo o que detinham pela luz da sabedoria que haveriam de cumulá-los de bens imperecíveis.
Francisco de Assis, por exemplo, deixou toda a herança de seu pai para trás, e, segundo os seus biógrafos, literalmente despido, preferiu a “pérola” do espírito, transfigurando-se no “pobrezinho de Assis”...
Conta-se que o grande Castro Alves, esnobado por uma dama em certo baile, escreveu em um dos versos do poema “Orgulhosa”: “Não troco uma estrofe minha, por um colar de rainha, por um troféu de latão...”
Albert Schweitzer, um dos maiores executores de Bach, internou-se nas selvas de Labaréné, no Gabão, e renunciou à vida de fausto que poderia ter na Europa...
Chico Xavier, logo após “Parnaso de Além-Túmulo”, recebeu propostas para frequentar os meios literários de Belo Horizonte, desde, no entanto, que renunciasse à mediunidade...
A vida, sem dúvida, é feita de escolhas.
O jovem rico que esteve com Jesus, não quis deixar tudo o que tinha para segui-Lo, com a finalidade de ter um tesouro nos céus... Conta-nos o Evangelista que ele retirou-se muito triste, porque era possuidor de muitos bens – não seria ele, com certeza, quem adquiria a “pérola preciosa”!...
E, certamente, não seremos nós, enquanto amantes dos bens transitórios da vida, que se resumem em dinheiro e poder, que seremos capazes de realizar semelhante transação.

INÁCIO FERREIRA

Uberaba – MG, 20 de Agosto de 2023.

 

domingo, 13 de agosto de 2023

Homens e Mulheres

“Grãos de Mostarda”

 

“Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, e crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos.” – Mateus, 13:31

 

Meditando sobre a Parábola do Grão de Mostarda, contada por Jesus, nos vem à mente que existem, sim, homens e mulheres que à pequenina semente de mostarda podem ser comparados...

São irmãos e irmãs que vivem quase em completo anonimato, mas que, através do trabalho, vão “germinando” e crescendo, tornando-se maior que todas as hortaliças, terminando por se transfigurarem em árvores humanas, sobre as quais “as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos” – pela espiritualidade alcançada, atraem para os seus “ramos” as “aves do céu”, ou seja, os Espíritos de Luz que passam a inspirá-los.

Uma mulher que, em Uberaba, citaríamos como exemplo de “semente de mostarda”, é a nossa valorosa irmã Aparecida Conceição Ferreira, a Dona Aparecida, do Hospital do Fogo Selvagem, que, atualmente, já se encontra domiciliada entre nós, os desencarnados.

Aparecida era enfermeira da Santa Casa, quando, com os doentes de pênfigo foram expulsos, postos, literalmente, na rua, pelos médicos que, então, dirigiam o referido nosocômio.

Ela era uma mulher muito simples, uma “semente de mostarda” – não sabia ler, não sabia escrever, era pobre e... negra, além, naturalmente, de pertencer ao sexo feminino, o que não deixava, à época, de ser um conjunto de preconceituosas adversidades, posto que, somente, de alguns anos para cá, a mulher vem conquistando o espaço que, por mérito e direito, sempre lhe pertenceu.

Aparecida, assim humilhada, recolheu os penfigosos – que chegavam a ser comparados aos portadores do Mal de Hansen – e os levou para a sua casa, com o número de assistidos por ela crescendo dia a dia.

De todas as partes do Brasil, os doentes do fogo selvagem vinham à procura daquele “anjo negro do Hospital do Pênfigo”, conforme passara a ser chamada por conhecido jornalista da cidade...

A verdade é que aquele aparente frágil grão de mostarda se mostrou extremamente forte: germinou no monturo, cresceu, virou uma hortaliça e se fez robusta árvore, à cuja sombra, inclusive, vinham se amparar os filhos e netos dos penfigosos – Aparecida transformou a sua casa em hospital, fundou uma creche, uma escola, um centro espírita, e se fez grande amiga de Chico Xavier, que, segundo ela, era como se fosse seu pai – Chico, uma outra semente de mostarda que o Céu semeara em gleba mineira, na cidade de Pedro Leopoldo!...

Sim, “as aves do céu” vinham “aninhar-se nos seus ramos”, pousando em seus “galhos” e neles fazendo morada, passando a trinar dia e noite inspirando a verdadeiras multidões que buscavam a sua presença.

*

Ninguém é tão pequeno e insignificante, um grão de mostarda”, que, trabalhando com sinceridade não possa se transmudar em hortaliça e, depois, em árvore vetusta sobre a qual “as aves do céu” venham a se aninhar!...

 

INÁCIO FERREIRA

Uberaba – MG, 13 de Agosto de 2023.  

 

 

domingo, 6 de agosto de 2023

O Drama de Zaqueu

 

No episódio de Zaqueu, o publicano, narrado por Lucas, há algo que merece, de nossa parte, mais acurada meditação.

Visitado por Jesus, Zaqueu prometeu, a quem, porventura, tivesse defraudado restituir quatro vezes mais... À primeira análise, Zaqueu estaria reparando uma injustiça cometida, mas... não é bem assim.

O dinheiro, sem dúvida, pode reparar o prejuízo de ordem financeira, mas não podemos olvidar que, não raro, o problema econômico que envolve alguém ou um grupo familiar desencadeia prejuízos de ordem moral que o dinheiro que não supre.

É bem possível que os males ocasionados por Zaqueu àqueles que ele tenha defraudado, tenham levado muitas famílias a se desestruturarem: um filho que não pode estudar, uma filha que tomou diferente rumo na vida, talvez, até se entregando à prostituição, um menino que, premido pela necessidade, se transfigurou em delinquente...

Quantos são, afinal, os que, prejudicados materialmente por outrem, podem, sob o aspecto moral, padecerem danosas consequências para o resto de sua caminhada terrestre?!...

Esse prejuízo ocasionado por Zaqueu, em sua excessiva ambição e, por certo, desonestidade, não poderia ser sanado nem que ele entregasse às suas vítimas toda a fortuna acumulada, às custas das muitas lágrimas vertidas por elas.

Somente através das vidas sucessivas, ou da Reencarnação, é que Zaqueu poderia ficar quites com a Lei de Causa e Efeito, nos prejuízos morais de que foi o autor.

Convém, pois, irmos devagar na reflexão do episódio em pauta, porque se Jesus disse que naquele dia houve salvação na casa de Zaqueu, Ele não disse que Zaqueu estava absolvido das culpas adquiridas, mas, sim, que, provavelmente, a partir daquele dia, o publicano de pequena estatura deixaria de se comprometer ainda mais do que já havia se comprometido.

O dinheiro pode pagar a dívida feita por ele, mas não pode quitar os débitos morais decorrentes dos males que causa.

 

INÁCIO FERREIRA

Uberaba – MG, 6 de Agosto de 2023.