Desencarnação e
Mudança
Muitos acham que a desencarnação possa promover, no espírito
carente de aperfeiçoar-se, súbita mudança na personalidade – principalmente,
claro, naqueles que têm oportunidade de constatar os equívocos que, porventura,
tenham cometido na Terra.
Enganam-se.
Alguns poucos, de fato, adquirindo certo nível de
conscientização com o seu desenlace do corpo grosseiro, são levados a efetuar
mais sérias reflexões em torno da necessidade de mudança comportamental,
incluindo mudança de valores, de hábitos, e até mesmo de ideias.
Não obstante, as mudanças substanciais, de natureza íntima,
não acontecem simplesmente porque o espírito tenha se transferido de Plano
existencial.
Com esmagadora maioria da população terrestre o que acontece,
no fenômeno da desencarnação, talvez, não seja nem mesmo mudança extrema de
endereço, já que ela continua residindo quase em justaposição, ou sobreposição,
ou ainda, muitas vezes, em “subposição”
ao endereço em que reside.
Raros são os homens que, em deixando a Crosta, sabem ou passam a saber que se transferiram de domicílio, e que, verificando
que a morte não existe, necessitam rever os conceitos em que, secularmente, vêm
fundamentando a existência...
E mais raros, por exemplo, os que se revelam dispostos em
abrir mão de pontos de vista em que se cristalizam no atendimento a interesses
de ordem particularista.
Deste Outro Lado, muitas das objeções que os encarnados fazem
à respeito da Vida além da morte, são feitas também pelos desencarnados que não
admitem a morte como sendo “desencarnação”, e prosseguem negando a
possibilidade de, um dia, regressarem ao corpo grosseiro, de ascenderem a
outras Dimensões, ou ainda negando que possam ser chamados a habitar uma das múltiplas
moradas da Casa do Pai na imensidão sem fim do Universo.
O assunto é complexo e, no campo ético, a questão matemática
de que dois mais dois são quatro não pode ser aplicada.
Assim é que muitos e muitos, infelizmente, em desencarnando,
não logram desencarnar o pensamento, partindo-se do pressuposto de que ele,
literalmente, carece de submeter-se ao fenômeno liberatório.
Alguns espiritistas, nossos confrades, ainda não alcançaram a
concepção de que o desenlace do corpo não é mais que o desenlace do corpo, e
que o despertar do espírito, onde quer que ele esteja, é processo lento que
envolve esforço, sofrimento, vontade, maturação...
A semente no ato da germinação, que pode, grosseiramente, ser
comparado ao desenlace, apenas perde a casca que a envolve para que, por fim,
possa crescer, inundar-se de luz e dizer ao que veio.
Por sobre a Terra, ao lado de nossos irmãos encarnados, perambula
uma verdadeira multidão dos “sem corpo”, inconscientemente ansiando por um novo
berço – o que, para eles, acontecerá de maneira mecânica, por mera ação da Lei
do Renascimento.
E, em não acontecendo, com o tempo, dando sequência ao
fenômeno migratório que já vem ocorrendo no orbe planetário, esses integrantes
da multidão dos “sem corpo” serão compelidos, ou tangidos, com naturalidade,
a buscarem para si outras plagas onde se sintam aclimatados.
INÁCIO FERREIRA
Uberaba – MG, 17 de Dezembro de 2023. (*)
(*) ESTE BLOG VOLTARÁ COM AS SUAS PUBLICAÇÕES NA SEGUNDA
QUINZENA DO PRÓXIMO MÊS DE JANEIRO.