domingo, 16 de maio de 2021

 

Eles Estão Bem

 

Minha cara, você me escreve perguntando se o filho querido desencarnado se encontra bem no Mundo Espiritual.

Claro que ele está bem e amparado pela ação de diversos amigos e familiares que com ele se preocupam, pois, inclusive sobre a Terra, felizmente, hoje são raros os que permanecem sem assistência nas ruas.

Os desencarnados não incentivariam os encarnados a trabalhar para se conservarem de braços cruzados.

Dos Dois Lados da Vida, o problema que precisamos saber administrar é a saudade, à qual, por vezes, muito passam a prestar doentio culto.

Por mais amor que você consagre ao filho que partiu, jamais acredite que a sua dor possa ser maior que a dor de qualquer mãe que esteja passando por prova semelhante à sua.

De minha parte, digo a você que é mais fácil os encarnados não ficarem bem ante a desencarnação de um ente amado, do que ele, de certa maneira, não se sentir aliviado por ter se emancipado dos pesados grilhões da matéria.

A rigor, os vivos continuam mais necessitados de preces do que os mortos.

 

INÁCIO FERREIRA

(Página extraída do livro “Paz de Espírito” – Editora LEEPP, Uberaba – MG).

 

 

domingo, 9 de maio de 2021

 

“Olho Gordo”

 

Há pouco tempo, estando já daqui deste Outro Lado, me encontrei com uma amiga que, em rápidas palavras, apenas com o propósito de espairecer, traduzirei o que ela, então, me disse:

- Doutor, tome muito cuidado com “olho gordo”...

- Eu sempre ouvi essa expressão, mas... – retruquei algo reticente.

- Doutor, existe sim...

- ?!...

- Vibrações de inveja... Convém tomar muito cuidado sempre...

E deu-me uma receita de sua avó:

- A gente precisa ter uma planta em casa, nem que seja num vaso...

- O que uma planta tem a ver com essa estória de “olho gordo”?! – inquiri, curioso.

- Tendo uma planta em casa, o “olho gordo” pega na planta e... não pega na gente!...

- Verdade?! Coitada da pobre!...

- Ah, eu sempre pude comprovar... O tal de “olho gordo”...

- Minha irmã – redargui –, mas se é assim eu vou ter que plantar um “Jardim Botânico” em casa, ou, pensando melhor, o que restou da Mata Atlântica...

Ela sorriu e, despedindo-se, arrematou:

- Não descreia, Doutor, não descreia! A conselho de minha avó, eu sempre tive um vaso de arruda, ou um de comigo-ninguém-pode, ou ainda um de guiné...

Com todo respeito, sorri da crença da amiga que se afastou, que, mesmo estando “morta”, não esquecia a recomendação de sua querida avoenga.

Quanto a mim, fiquei a pensar que, de fato, o problema da vibração de inveja, ou seja lá qual for, não pode ser tão menosprezado, pois, realmente, eu não acredito no tal de “olho gordo”, mas creio no chamado olhar de “secar pimenteira”...

Vocês devem estar sorrindo, não é?! Pois eu também estou, e muito, dando gostosas gargalhadas, porque desde cedo aprendi que a alegria é um dos melhores antídotos contra o veneno da inveja.

A alegria é um “anticorpo” de ação comprovada, até mesmo contra certos vírus que podem levar os encarnados, e até os desencarnados, a um desenlace.

- Desenlace de desencarnado?!...

Ah, outra hora falamos deste assunto, que vai consumir muito espaço no Blog.

Continuemos a falar sobre a questão filosófica do “olho gordo”, que tanto pode ser de gente magra, magérrima, quanto de gente obesa...

No entanto, sendo como a avó de minha amiga disse, o “olho gordo” quando parte de espírita deve possuir uma obesidade mórbida – “olho gordo” de espírita, talvez, apenas a nossa Dona Cherubina, com os seus muitos santos... (Vocês se recordam dela, de o “Sob as Cinzas do Tempo”?! Ela reencarnou... Pude visitá-la não faz muito: uma garota linda!...)

Contra “olho gordo” de espírita é preciso muito benzição (ops), muito passe e... muita alegria, alegria na alma por estar cumprindo com o dever, sem dever nada a ninguém...  

Todavia, antes que, pela milionésima vez, eu seja rotulado de antidoutrinário (e por esses “doutrinadores” que andam por aí, eu sou mesmo, porque discordo deles quase que 99,9%...), devo esclarecer que aqui no “Hospital dos Médiuns” não temos nenhum pé de arruda, ou de comigo-ninguém-pode, nem de guiné... Confesso a vocês que não! Só tenham aguado, de quando em quando, por via das dúvidas, um pequeno vaso de Espada de São Jorge, humilde vegetal com que, um dia, a nossa desencarnada irmã Alcina deu uma surra numa pessoa, alegando que precisava tirar dele o diabo do corpo!...

- Se o diabo saiu?!...

- Ah, deve ter saído, porque foi muita lambada até mesmo para o diabo aguentar!...

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 9 de Maio de 2021.

 

 

 

 

 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

 

Faz Parte

 

Diante das convulsões sociais que a Humanidade vem atravessando, que são, antes, de ordem espiritual, o importante é que cada um não se entregue ao desânimo e à desesperança.

Todos esses acontecimentos negativos que concorrem para que o homem esmoreça diante da luta, e, dentre eles, a pandemia do “Coronavírus”, fazem parte de seu processo evolutivo, no orbe que, de fato, se encontra em transição.

Não há que ninguém, pois, venha a se render à descrença em dias melhores, que sucederão os que estão sendo atravessados na atualidade, dias em que densas nuvens parecem eclipsar a claridade solar que não se altera no firmamento.

Durante algum tempo, haverá necessidade de que os nossos irmãos e irmãs, que se encontram no envoltório carnal, sobrevivam mais de esperança que de certeza, de vez que a luz que existe no fim do túnel ainda não pode ser divisada com a nitidez que se deseja.

Contudo, repetimos, tais provações, que, não raro, nos dão a impressão de titânica “queda de braços”, entre o Bem e o mal, fazem parte do que a Lei Divina determina para a aferição de valores de todos os espíritos que, direta e indiretamente, nelas se encontram envolvidos.

Não há como possa ser diferente, a não ser que tivéssemos feito diferente o caminho que, até o presente momento, temos trilhado.

À semeadura, sucede-se a colheita.

Depois da semente no chão, não há como não se fazer a ceifa de sua semeadura.

Portanto, procuremos nos revestir de muita calma e paciência, confiando na Divina Misericórdia, que não criou a raça humana para promover a sua extinção.

Continuemos a optar pela “porta estreita”, resignados ante as consequências que semelhante escolha sempre acarreta para aqueles que tomam a decisão de não seguir por nenhum atalho que os coloque em conflito com a consciência.

Na medida de nossas possibilidades, e mesmo até um pouco além delas, procuremos cooperar com o Cristo na construção do Mundo Melhor, testemunhando a fé, embora, não raro, com lágrimas de tristeza que nos caem dos olhos, por ver o rumo que, infelizmente, as coisas andam tomando.

Não concordemos em ser partícipes do caos que se estabelece e que, talvez, venha a se estabelecer de maneira mais generalizada, para que, enfim, o joio não venha se confundir com o trigo.

Cumpramos com os deveres, todos eles, a que somos chamados, para que não venhamos a estar entre os primogênitos “na terra do Egito”, que, gradativamente, haverão de ser encaminhados a doloroso exílio.

Cuidemos para que os nossos interesses pessoais não falem mais alto e nos destituam do discernimento justo.

O que está ocorrendo na Terra de agora, sem dúvida, faz parte e não é de se estranhar, porque, afinal, tais tempos estão previstos desde muito, e poucos foram e são os que possuem ouvidos de ouvir.

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 3 de Maio de 2021.

 

 

 

  

 

 

 

domingo, 25 de abril de 2021

 

Os Espíritas Que Contestam Chico Xavier

 

Os espíritas que contestam a Obra Mediúnica de Chico Xavier, e, sem a menor noção de ridículo, contestam, igualmente, a sua vida apostolar, segundo podemos observar, podem ser divididos assim:

a)    Os que, devido a questões de vaidade e personalismo, querem obter destaque através das críticas ingênuas que lhe fazem;

b)    Os que lhe temem os exemplos de renúncia e devotamento com os quais nos mostrou como a Doutrina deve ser aplicada;

c)     Os que, de maneira consciente ou inconsciente, a serviço das trevas, querem minimizar a grandeza da tarefa que ele cumpriu...

Claro que poderíamos, apontando as possíveis causas de oposição a Chico Xavier, e ao que ele representa, por alguns espíritas, utilizar as letras do alfabeto inteiro...

Não obstante, fiquemos apenas com o a, b, c, desse estranho alfabeto, no qual, de maneira geral, estão incluídos os que, de uma forma ou de outra, querem ser mais do que Chico foi e continua sendo –

Querem ser eles mesmos, talvez, a reencarnação do próprio Codificador, ou, no mínimo, um espírito de alta hierarquia a preservar a Doutrina de seus supostos desvios!...

Há quem não aceite a Chico pelo fato, segundo alegam, de ter feito com que o Espiritismo enveredasse, no Brasil, pela sua vertente religiosa, mais que pela sua vertente científica.

Esses nossos irmãos, pedindo a eles que nos perdoem, que assim falam, no entanto, nada são capazes de fazer para que a Doutrina se destaque do ponto de vista científico – e nada fazem pela sua incapacidade intelectual de o fazer, de vez que são detentores de rasa cultura para tanto.

Pretendem inovar no campo da compreensão da Doutrina, e de seu estudo, não obstante, ficam sempre a “chover no molhado”, de vez que, infelizmente, ler o que escrevem ou escutar o que dizem nada acrescenta – terminam, porém, porque logram se expressar verbalmente com facilidade, fazendo uma pequena legião de seguidores com a qual se sentem entronizados, passando o resto da encarnação a se imaginarem cumprindo elevado desiderato.

É uma pena...

Se tais se limitassem a proferir as suas “palestrinhas” nos Centros Espíritas mais humildes, fazer sopa para os pobres com fome, transmitir passes nos doentes, preocupar-se em evangelizar crianças, fariam muito mais pela Doutrina do que pensam estar fazendo, escutando os aplausos daqueles que lhes entorpecem as mentes.

Temos visto obras escritas sobre as Obras de Kardec que são de tal forma volumosas e prolixas que inviabilizam a sua leitura por parte dos adeptos mais interessados.

É uma pena...

De nossa parte, vamos seguindo, considerando a Obra Mediúnica de Chico Xavier, depois da Codificação, como a mais importante de todos os tempos para que o homem melhor compreenda a sua essência.

Infelizmente, porém, dentro dessas tentativas de diminuir o valor da Obra do grande medianeiro, um dos maiores Apóstolos do Cristo, ainda nos deparamos com o absurdo de um punhado de vaidosos e personalistas da Federação Espírita Brasileira, que, não podendo escrever as Obras que o Chico escreveu, deliberaram fazer cocô de mosquito sobre elas, e as adulteraram na letra, de vez que, por mais façam, nunca haverão de adulterá-las no coração do povo.

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 25 de Abril de 2021.

 

 

domingo, 18 de abril de 2021

 

A Obra Literária de Chico Xavier

(Em Homenagem ao 18 de Abril)

 

Alguns amigos nos solicitam, ainda que rapidamente, uma análise literária da Obra Mediúnica de Chico Xavier. Por não sermos experts no assunto, não poderemos fazê-lo, de vez que, segundo cremos, ele cabe aos especialistas.

Contudo, podemos dizer que a Obra Mediúnica de Chico Xavier, desde a sua primeira publicação, “Parnaso de Além Túmulo”, vem sendo analisada literariamente, causando surpresa aos estudiosos isentos pela sua autenticidade.

Chico Xavier psicografou em todos os gêneros literários: épico, lírico e dramático – por seu intermédio, desde 1927, os Autores Espirituais escreveram romances, novelas, contos, crônicas, poemas, canções...

Chico, ainda, produziu notável literatura infanto-juvenil, através, por exemplo, das obras intituladas: “Os Filhos do Grande Rei”, “Mensagem do Pequeno Morto”, “História da Maricota”, “Jardim da Infância”, “Cartilha do Bem”, “Pai Nosso”, etc.

Habitualmente, os grandes escritores, os mais premiados, revelam inata tendência para gênero específico de literatura, mais consoante com a sua capacidade intelectual e preferência. Na condição de médium, porém, Chico serviu de instrumento para diversos espíritos que, por ele, se manifestavam com a sua especialização literária: os poetas do “Parnaso”, os cronistas de “Vozes do Grande Além”, com destaque para Humberto de Campos, em “Crônicas de Além-Túmulo”, então considerado o maior cronista brasileiro, e ocupante da cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras...

Emmanuel, que, em um de suas múltiplas encarnações, foi o Padre Manoel da Nóbrega, considerado o Primeiro Escritor do Brasil, dedicou-se, através do versátil médium, a escrever épicos históricos, em Português castiço, impecável – as suas Obras Literárias, essencialmente Doutrinárias, aliás, como todas as demais, versam sobre o Cristianismo Nascente. Em “Paulo e Estêvão”, por exemplo, tendo como inspiração a vida de Paulo de Tarso, o denominado Apóstolo dos Gentios, nos deparamos com a História do Cristianismo em seus primeiros tempos. Emmanuel, no livro “Renúncia”, ainda nos traz vestígios do trabalho que, ao longo dos séculos, os espíritos, e, dentre eles, Alcíone e Padre Damiano, efetuaram em favor do Cristianismo, na Europa e na América, nos preparativos espirituais para que a Terceira Revelação se concretizasse, a partir da publicação de “O Livro dos Espíritos”, em Paris, na França, a 18 de Abril de 1857.

O trabalho de André Luiz, pseudônimo do Dr. Carlos Chagas, do ponto de vista literário e doutrinário, pode ser considerado inovador, porque se servindo de resumidas narrativas, o festejado Autor Espiritual de “Nosso Lar”, dá sequência à revelação em torno da vida dos espíritos além da morte – as obras de André Luiz, dentro da Literatura, podem, sem dúvida, ser classificadas como dramáticas, porque versam sobre as realidades do espírito na Vida Maior – de “Nosso Lar” a “E a Vida Continua...”. Desse mesmo autor que, quando encarnado, foi um cientista de mérito, podemos colocar em destaque o excelente “Evolução em Dois Mundos”, publicação de natureza científica que impressiona pela sua originalidade, a que nenhuma outra obra de autor encarnado ou desencarnado pode se comparar.

Interessante frisar que toda a Obra Literária de Chico Xavier, hoje com mais de 500 livros publicados, além de ter sido gramaticalmente vasada de maneira exímia, desdobra o chamado “Pentateuco Kardeciano”, ou amplia a Codificação, aprofundando-se no estudo de seus Princípios Básicos: Reencarnação, Mundo Espiritual, Lei de Causa e Efeito, Intervenção dos Espíritos no Mundo Corpóreo, Pluralidade dos Mundos Habitados, etc. Portanto, do ponto de vista doutrinário, e não apenas literário, a Obra Mediúnica de Chico Xavier, pode ser considerada irretocável, sem a menor contradição com a ciclópica Obra de Allan Kardec, concebida em meados do século XIX.

Não obstante, os espíritos que pelo médium se expressaram durante 75 anos consecutivos – Chico psicografou a sua primeira página do Mundo Espiritual em 8 de Julho de 1927 –, continuariam dando mostras de sua identidade e estilo, quando, a partir da década de 70, os comunicados, ao se transformarem em depoimentos pessoais, trouxeram à escrita mediúnica os habitantes comuns da Pátria Espiritual, que, através do médium, intensificaram os seus contatos, em verdadeiras legiões, e com cada um deles escrevendo à sua maneira, inclusive, por vezes, valendo-se de gírias – grande parte desses espíritos, ao término de suas cartas, lograva assiná-las com a própria letra, além de mencionar detalhes de sua experiência reencarnatória tão somente conhecidos da família. Podemos, pois, dizer que, com Chico, esse novo gênero literário, as “Cartas Familiares”, inauguraram uma nova fase no intercâmbio entre encarnados e desencarnados.

Dentro de todos as espécies literárias que Chico psicografou, a diversidade de estilos é tão grande que, sem dúvida, o assunto carece de ser estudado por especialistas, de vez que, por si só, comprova a imortalidade da alma e a possibilidade dos vivos do Além entrar em contato com os vivos da Terra.

Através de Chico Xavier, portanto, a Literatura de Além Túmulo passou a integrar o vasto campo da Literatura, que não mais se restringe a autores encarnados.

Em 1932, quando “Parnaso de Além Túmulo” foi publicado pela Federação Espírita Brasileira, com o seu médium contando apenas 22 de idade, vários críticos se manifestaram a respeito da obra que passou a ocupar as páginas dos principais periódicos da época. E, para encerrar este pequeno arrazoado, escrito com o intuito de relembrar o 18 de Abril – Dia do Livro Espírita –, transcrevemos abaixo o que o célebre Humberto de Campos, que também escrevia sob o pseudônimo de “Conselheiro XX”, teve coragem de dizer sobre o “Parnaso”:

“Eu faltaria ao dever que me é imposto pela consciência, se não confessasse que, fazendo versos pela pena do Sr. Francisco Cândido Xavier, os poetas de que ele é intérprete apresentam as mesmas características de inspiração e expressão que os identificavam neste planeta. Os temas abordados são os que os preocupavam nesta vida. O gosto é o mesmo e o verso obedece, ordinariamente, à mesma pauta musical. Frouxo e ingênuo em Casimiro, largo e sonoro em Castro Alves, sarcástico e variado em Junqueiro, fúnebre e grave em Antero, filosófico e profundo em Augusto dos Anjos – sente-se, ao ler cada um dos autores que veio do outro mundo para cantar neste instante, a inclinação do Sr. Francisco Cândido Xavier para escrever à la manière de... ou para traduzir o que aqueles altos espíritos sopraram ao seu.”

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 18 de Abril de 2021

 

domingo, 11 de abril de 2021

 

Paulo, o Pedinte – III

 

- Doutor, o senhor não fica com raiva de mim, não?! – perguntou-me o pobre irmão, depois que enxugou as lágrimas com o lenço surrado que lhe estendi.

- Raiva?! De você?! Claro que não...

- Eu não quero decepcioná-lo...

- Você não me decepciona, Paulo – respondi. – Decepção, eu sempre tenho é comigo mesmo...

- Sabe o que é, Doutor...

- Sei...

- Não tenho como agradecer ao senhor...

- A mim, você não tem como, e nem o que agradecer mesmo – repliquei. – A nossa gratidão deve ser sempre para com Jesus Cristo...

- Eu sei, eu sei... É modo de falar, Doutor, modo de falar... Eu não tenho nada contra ninguém...

- Entendo...

- Sabe o que é, Doutor... – repetiu-se.

- Diga lá, meu caro... Não hesite tanto...

- Eu queria pedir um tempo...

- Paulo, eu não sou dono do tempo...

- Um tempinho só... Eu ainda não me sinto preparado...

- Compreendo...

- O senhor me propõe “pegar” ou “largar”... Não é que eu queira largar...

- Você apenas não quer pegar...

- Mais ou menos...

- A vassoura, o lápis...

- Eu até que poderia ir com o senhor, mas... eu não vou ficar...

- Você é livre...

- Gostaria de pensar mais...

- Bem, as portas foram abertas – oferecemos a você o que está ao nosso alcance...

- Eu gosto da liberdade, da noite, de ver as estrelas no céu...

- De dormir ao relento, de levantar-se...

- Sim, a hora que quiser, sem nenhuma obrigação, nem mesmo, Doutor, a de lavar o rosto...

- Muito menos a de tomar banho, todos os dias – gracejei.

- Estou vivo, não estou?!...

- Vivíssimo!...

- Não morri, não é?!...

- E nem morrerá!...

- Então, Doutor, para que pressa?! Eu gosto de andar por aí... Eu não sou do mal, Doutor?! Eu sou do bem!...

- Se você fosse do mal...

- Jesus buscou a Paulo de Tarso, não é?!...

- Buscou – respondi. – Espero que você não esteja esperando que Ele venha buscar a você...

- Não, Doutor, não é isso... É que eu ainda não achei a minha Estrada de Damasco – filosofou.

Houve uma pausa e Paulo tornou a perguntar:

- O senhor não fica com raiva de mim, e nem triste comigo?!...

- Bem, um pouquinho triste, eu fico, sim...

- Fica não, Doutor... Se eu precisar, vou atrás do senhor...

- Posso não estar...

- Por quê?!...

- Tudo muda... Quem sabe, quando você me procurar, eu já tenha voltado?!...

- Voltado?!...

- Sim, para a Terra...

- O senhor terá coragem?!...

Sorri da espontaneidade do amigo e indaguei:

- Sinceramente?!...

- Sim, sinceramente... O senhor teria coragem?!...

- Coragem, eu não teria, mas, se o Senhor mandar, eu tenho que obedecer...

- Então...

- Então, Paulo, eu preciso ir andando – falei. – Você vai ficar bem?!...

- Vou, Doutor, não se preocupe...

- É uma pena! – exclamei, lamentando.

- Não era uma vassoura e... um lápis?! – ironizou, erguendo-se do chão e pegando uma bolsa com alguns poucos pertences.

- Estou me referindo a outro tipo de pena – frisei.

- Posso dar um abraço no senhor?!...

- Claro – respondi –, até dois, no máximo...

Abraçamo-nos e ele, com as suas pernas finas e a barba por fazer, antes de ganhar a rua, perguntou-me:

- O senhor teria uns trocados?!...

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 11 de Abril de 2021.

 

 

 

domingo, 4 de abril de 2021

 

Paulo, o Pedinte – II

 

- Pega, ou larga?! – insisti ante a hesitação de Paulo.

- Decidir assim, tão depressa?! – retrucou. – A gente tem que ter um tempo para pensar... Eu pensei que...

- Pensou o quê, meu caro?!

- Que morrer seria diferente... Pensei que a gente fosse descansar...

- Você descansou a existência inteira... Em que trabalhou?! Conte-me...

- Bem, eu... Nunca fui assim de ficar num serviço só... Ficava uns tempos num, uns tempos noutro...

- Paulo...

- Depois de desencarnar, a gente tem que trabalhar mesmo, Doutor, para valer?! O senhor deve estar brincando...

- Olhe para a minha cara...

- O senhor, não nego, é uma pessoa muito simpática – não se trata de beleza, beleza, mas...

- Pega, ou larga?!...

- A vassoura?!...

- A vassoura, e o lápis!...

- O lápis também?! Não, Doutor, o lápis?!...

- Trabalhar e estudar...

- Para que saber assinar mais que o próprio nome?! Doutor, quanto mais a gente conhece, mais a gente sofre...

- Prefere a rua, não é?!...

- Tenho muitos amigos... Quando eu me canso, onde estiver, paro, deito e durmo – debaixo de uma marquise, da sombra de uma árvore...

Fez uma pausa e falou:

- Tenho o que comer... As pessoas são boas, generosas... Sempre ganho um lanche, uns trocados... Eu não sei... O mundo dos homens é muito complicado – na rua, eu vivo em paz...

- Complicado?!...

- Os que moram na Casa de Deus bagunçam demais... Ambição, orgulho, uma briga sem fim...

- Você não está fora da Casa de Deus – ninguém está! Você é um de seus inquilinos, e não quer pagar o aluguel...

- Aluguel?!...

- Paulo, o que você tem dado em troca pelo ar que respira, pela luz do Sol e, até mesmo, pela beleza das flores?! Conte-me...

- Uai, eu usufruo...

- Não se sente devedor?! Não percebe que o Cristo, o Pedinte dos Pedintes, está de mãos estendidas para você?! O que você já lhe deu?! Quantas moedas de sua boa vontade para colaborar com Ele na construção do Mundo Melhor?!...

- Eu não tenho nada...

- Que vergonha, Paulo! Você tem coragem de dizer que não tem nada... O egoísmo não ataca apenas quem tem dinheiro, não! O egoísmo é a pior das doenças que conheço...

- Não dou prejuízo a ninguém, nunca fiz mal a ninguém...

- E bem?! Você faz o bem?! Responda-me em sã consciência...

- Não faço o mal...

- Não é suficiente... Os omissos se omitem em favor do mal, e não em favor do bem...

- O senhor aperta muito a gente...

- Pega, ou larga?!...

- A vassoura, e o lápis?! – tornou a perguntar. – Os dois de uma vez...

- De uma vez só... Claro, você tem a opção de continuar vagando e... sofrendo!...

- Eu não sofro, Doutor?!...

- Não?!...

Paulo, pela primeira vez, chorou, e, começando a chorar, chorou como raramente tenho visto um homem chorar – com muitos anos de treino, sentou-se com facilidade no chão e, levando as mãos às faces, chorou feito uma criança crescida, que é o que o homem é...

Deixando que ele vertesse o rio das lágrimas que trazia represado no coração, puxei uma cadeira, sentei e... esperei.

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 4 de Abril de 2021.

 

domingo, 28 de março de 2021

 

Paulo, o Pedinte - I

 

Um dos “pioneiros” do Covid, em Uberaba, foi Paulo, o pedinte meu amigo.

Não o conheci quando eu ainda estava na carcaça, mas, quase toda terça-feira, à noite, ao término das reuniões de estudos na Casa Espírita “Bittencourt Sampaio”, tínhamos oportunidade de nos encontrar à porta da Instituição.

Não raro, igualmente, nos víamos, quando, então, ao dormir em qualquer pedaço de chão, ele conseguia colocar a ponta do nariz deste Outro Lado, antes de voltar correndo para o corpo...

Paulo, em vidas anteriores, fora um boêmio inveterado, e possuía, sim, alma de artista – gostava de escultura, de modelagem, etc. Em consequência de seus desregramentos, tinha a barriga toda costurada – quase desencarnara antes, em três ou quatro cirurgias que lhe extirparam pedaços do estômago e de outros órgãos...

Ele vivia nas ruas e costumava fazer “ponto” na praça da Igreja da Abadia, sendo conhecido de muitos – educado, conversa boa, apenas tendo ciúme quando um outro pedinte invadia a sua “área”, e a ele se adiantava nos adjutórios...

Ano passado, vitimado pelo Covid, foi levado para o Hospital das Clínicas, quase sem respirar – eu não sou da época do Covid, ou do “Sars 2”, mas sou do tempo do enfisema, e sei o que é desencarnar sufocado...

Quando Paulo, na condição de indigente, fechou os olhos para as ilusões do mundo, fui vê-lo, sendo que, ao avistar-me, foi logo puxando prosa:

- Parece que eu conheço o senhor...

- Não sei... Tenho uma cara comum...

- Não, eu conheço o senhor... Esse seu jaleco branco é famoso... O senhor, por acaso, é o Dr. Inácio Ferreira, o médico lá do Sanatório Espírita?!...

- Dizem que sou...

- Ah, eu já o vi de longe, lá na porta do Sanatório... Fiz um busto do senhor, em argila, para um amigo...

- Eu vi esse tal busto...

- O senhor gostou?!...

- Não, não gostei – respondi.

Ele sorriu meio sem graça e perguntou:

- Uai, por quê?!...

- Por causa do nariz – você me botou com o nariz do Manoel Roberto... Eu nunca tive um nariz daquele tamanho, mais parecido com a tromba de um elefante...

Paulo sorriu e... tossiu.

- Tenha calma – disse-lhe –, não faça grandes esforços...

- A culpa é do senhor, que me fez sorrir...

- Sempre me culpam de alguma coisa – aliás, em matéria de culpa, creio que só tenho perdido para um político brasileiro...

- Ah, já sei...

- Pois é, Paulo – falei, mudando de assunto. – Você tanto fez que... deixou a carcaça!...

- Desencarnei?!...

- Sim...

- Tão fácil assim?!...

Houve pequeno silêncio que não quebrei.

- E agora?! – indagou-me.

- ?!...

- Eu não sei fazer nada... Estou sem gás de cozinha na minha casa, precisava de uns trocados...

- Ficou sem gás em sua casa e... em seus pulmões...

- Pneumonia, Doutor?!...

- Também...

- E agora?! – repetiu a pergunta. – Eu não tenho ninguém...

- Você tem uma multidão...

- O que vou fazer?!...

- Se quiser, posso empregá-lo, a troco de casa, comida e roupa lavada e passada...

- E não sei fazer nada...

- Sabe varrer o chão?!...

- Varrer o chão é simples, mas eu nem vassoura tenho...

- Com vassoura, meu irmão, você não se preocupe, pois temos um enorme estoque – a bem da verdade, temos uma fábrica de vassouras...

Paulo ficou pensativo – não estava mesmo, desde muito, acostumado a trabalhar.

- Paulo, esqueça o mendigo, que já era, ou já foi, sei lá... Comece a varrer por fora o que você precisa varrer por dentro – todos carecemos de varrer por dentro!...

Silêncio.

- É pegar, ou largar!...

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 28 de Março de 2021.

domingo, 21 de março de 2021

 

VISITANDO UMA IRMÃ

QUE DESENCARNOU PELO “CORONA”

 

Por solicitação de um amigo de um amigo, amigo de um amigo meu, fui visitar, em São Paulo, uma irmã que, com a filha, desencarnou vitimada pela ação do “Corona”.

Entre nós desdobrou-se, então, na UTI, o seguinte diálogo:

- Licinha, minha irmã, como você está passando?! Vejo que melhor, não é?!...

- Graças a Deus! – respondeu com voz pausada. – Imaginei que fosse desencarnar... Os médicos aqui do hospital são muito competentes e educados... Sinto que, a cada dia, estou melhorando...

- E os enfermeiros também – acrescentei. – São muito solícitos... Ainda há pouco tive oportunidade de vê-los em ação – são uns heróis e umas heroínas...

- Sim, eu não posso me esquecer deles – trabalham tanto! A toda hora estão aqui, medindo a minha temperatura, a pressão... O hospital é muito grande...

- Logo você terá alta – disse-lhe. – Andei dando uma olhada em seu prontuário... Você já está ótima...

- Tive uma falta de ar muito grande... Realmente, pensei que fosse desencarnar... Cheguei até a ver o Carlos Alberto...

- O Carlos Alberto?!...

- Sim, o meu esposo... Eu vi na beirada da cama – vi a ele e a uma jovem que desconfio ser a minha mãe... Não sei se foi a D. Rosa, que desencarnou com quase cem de idade – ela estava diferente...

- Ah, os espíritos, muitos, rejuvenescem quando deixam o corpo – depois de algum tempo...

- Ela era muito parecida com a minha mãe... Não disse nada, não! – apenas ficou me olhando, sorrindo, e o sorriso dela me transmitia calma... Talvez, num momento de febre, eu estivesse delirando...

- Talvez – respondi. – Febre alta, muitos medicamentos, o oxigênio...

- Não sei... Quando eu a via – a jovem apareceu para mim duas vezes –, a minha respiração normalizava, e eu me acalmava... Nossa, esses dias aqui têm sido muito difíceis – deve fazer parte da prova que tenho que passar...

- Sem dúvida...

- Ainda não sei da Lívia, minha filha – ela também estava com “Corona”... O irmão dela, que é médico, pediu a um amigo dele que me dissesse que ela já estava de alta e que me esperaria em casa...

- Você é de Uberaba, não é, Licinha?!...

- Sim, sou de Uberaba, a terra de Chico Xavier...

- A cidade em que ele viveu por quase cinquenta anos... O Chico nasceu em Pedro Leopoldo, perto de Belo Horizonte...

- Isso mesmo – concordou. – Ele é de Pedro Leopoldo, mas eu me lembro de quando o Chico foi morar em Uberaba... Estive lá muitas vezes... A minha mãe era espírita...

- Que bom que você está bem...

- O senhor não tem medo do contágio do vírus, não?! – indagou-me. – Está sem máscara...

- Não, não tenho – redargui. – Esse vírus não pode mais me pegar – estou imunizado...

- O senhor já tomou vacina?! Dizem que a vacina ainda não saiu, ou já?! Nem sei... Faz muitos dias que estou aqui...

- Não, não tomei vacina – respondi. – Mas, desde algum tempo, eu estou imune – esse vírus não me contamina... Outros, talvez, mas não o “Corona”...

- Eu, se fosse o senhor, tomaria cuidado, porque aqui neste hospital dizem que muita gente já desencarnou...

- Eu sei... Aqui e em muitos outros hospitais do Brasil inteiro, e do mundo...

- Mas, estamos conversando, o senhor me chamou pelo nome, e eu não sei o nome do senhor... Desculpe a minha grosseria. Quem é o senhor?!...

- Um irmão...

- Sim, mas... o seu nome?! Gostaria de dizer ao meu filho e às meninas que o senhor me visitou...

- Inácio... O meu nome é Inácio Ferreira...

- Inácio Ferreira?! – questionou, intrigada. – O médico psiquiatra, do Sanatório Espírita de Uberaba?!...

- Eu mesmo...

- Mas, que estranho... O Dr. Inácio Ferreira já desencarnou faz um tempão...

- Precisamente, minha irmã, no dia 27 de setembro de 1988...

- Espera aí... Estamos em 2020, não?!...

- Até o próximo dia 31 de dezembro, sim...

- Então?!...

- Você está de alta, Licinha, livre do “Corona”!...

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 21 de Março de 2021.

 

domingo, 14 de março de 2021

 

O Que Sei

 

O que sei é que devo seguir adiante procurando me corrigir a cada dia, fazendo pelos semelhantes o melhor que esteja dentro de minhas possibilidades, e, se possível, neste sentido, indo além de minhas possibilidades...

O que sei é que preciso ser coerente comigo mesmo, não entrando em conflito com a minha consciência, e não consentindo que os interesses subalternos me corrompam o Ideal...

O que sei é que devo trabalhar, todos os dias, em minha renovação íntima, conquistando vitórias anônimas sobre o “homem velho” que ainda prevalece em mim...

O que sei é que careço de errar menos, e muito menos, nas lutas que continuo travando contra as mazelas que teimam em me subjugar o espírito...

O que sei é que necessito criar, urgentemente, novos hábitos, à luz do Evangelho, porque somente assim não continuarei cativo do egoísmo, essa “chaga da Humanidade” que tantos males vem provocando à sociedade, entravando o progresso da civilização...

O que sei é que devo me esforçar ao máximo para cumprir com o meu dever, sem esperar por aplausos ou encômios de qualquer natureza, que, certamente, me induziriam a crer nas ilusões que, durante muito tempo, acreditei...

O que sei é que, custe o que custar, preciso ser fiel aos princípios da fé que abracei, porque, caso contrário, ser espírita não fará o menor sentido para mim, como, até agora, cousa alguma tem feito...

O que sei é que, mesmo não deixando de errar, devido ao meu estrabismo secular, que me impede de ver os reflexos da Verdade com nitidez – o que sei é que, mesmo aí, eu devo ser sincero, porquanto a sinceridade de meus propósitos haverá de falar por mim diante do Tribunal da Divina Justiça...

O que sei é que, nem que seja a passos de tartaruga, careço de procurar sair do lugar comum, dando a minha humilde colaboração para que este mundo ao qual também ainda pertenço – a Terra – venha a ser melhor para os que nele se encontram, e, consequentemente, para aqueles que, um dia, nele se encontrarem, entre os quais, evidentemente, eu me incluo...

O que sei é que não posso parar para ouvir quem me critica ou quem me censura, ou ainda quem me condena, porque não posso continuar perdendo mais tempo com suscetibilidades tolas, ou com melindres que são próprios dos espíritos infantilizados...

O que sei é que tenho muito a fazer e, realmente, não posso perder tempo com quem dispõe de tempo para continuar nas esquinas da vida observando a quem passa, com o único intuito de julgá-lo...

O que sei é que sei que cada um há de responder pelos seus atos, e, sendo assim, nada há de ficar oculto sob as pedras da conveniência ou das ambições que levam os homens a se afastarem da honestidade...

O que sei é que sei o que sou – pelo menos isto, pela graça de Deus, eu já sei –, e por saber o que já sei, convém que persevere no afã que me leva a servir, ignorando tudo o que me impeça de vir a ser mais, procurando a ser menos...

O que sei, enfim, é que fora de Jesus Cristo, o Espiritismo não me interessa, e o que dizem certos espíritas menos ainda!...

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 14 de Março de 2021.